A volta por Stella Rebecchi

A volta

Muitos chumaços de nuvens flutuam diante dos meus olhos, devagar e em harmonia. Sem pressa,vão passando, passando, com vários desenhos de bichos. Abaixo, verdes montinhos de terra parecendo iguais, transpassados por estradas em zigue zague parecendo caminhos de formigas. Aos poucos os montinhos se transformam em altas montanhas, o início da Serra dos Órgãos. Bonito! Continuo com o nariz quase grudado no vidro da pequena janela do avião. Meu nariz separado do vidro por um quase por conta de tantos medos de contaminação dessa peste, que nos corta o coração.  

Logo à frente, a chegada ao Rio de Janeiro com milhares de barracos construídos amontoados e em desalinho. Quase todos com antenas e caixas d’água azuis. Dependendo dos olhos que os veem, é uma bela pintura. Agora, lá se foi os chumaço de nuvem. O que vejo é o fundo da baía de Guanabara, um choque, desalentador; cores sem vida, do marrom pesado, passando para o bege opaco, com faixas de verde escuro quase preto, voltando ao verde musgo, longe do que um dia foi. Água morta, podre, certamente fétida. Sinto dor no estômago, uma sensação de não ter mais jeito. Sem as gaivotas brancas, sem peixes, e os poucos pequenos barcos ali fundeados, parecem estar imobilizados, grudados na massa de água parada impura, conformados. Impotência. Guardo todas as tampas de plástico de garrafas pet e remédios para não entupir e matar sufocados peixes e tartarugas que ainda existem, porém bem longe deste horror aqui em baixo…                                                                                                

Fujo do desalento e olho o hélice do pequeno avião  vendo o círculo transparente do giro dela. Percebo que estamos descendo. Ultrapassar a Ponte gigantesca, quase tocar a água e pousar lindamente chegando, é muito bom!  O Pão de Açúcar envolvido no céu azul do mais lindo azul do veranico de maio! Um respiro e um gemido.  Esqueço a água podre.

Volto da fazenda São Sebastião, onde a seca está judiando e o céu brilhando de sol e azul. Foram dias de beleza, harmonia, reconciliações, fofocas inconsequentes, barulho, risadas, choros, orações.  Passarinhos piando chamando a chuva, Bem-Te-Vis, Arapongas, Seriemas, em vão, ela não veio. As formigas, pensando que viesse a chuva, encheram o gramado do jardim com suas casas de terra. Em vão. Foi mais um ano de vida que festejei. Feliz de verdade, agradecida.Mesmo sentindo a falta de vivos e mortos. Sentimentos misturados, agridoces, sucrée sale, seria aniversário de 53 anos de um filho amado que se foi dali mesmo montado em sua bicicleta.

Esses dias foram um banho de água doce, fresca, de uma cachoeira suave. Lavando o corpo, lavando a dor e a alma. Poder estar perto novamente da família, pessoas que vivem na minha cabeça, nos porta-retratos e em meu coração, abraçá-las…Uma mistura de entrega e medo. Ver meu velho irmão sentado em sua cadeira de sempre, com o copo de cerveja na mão, me deu um arrepio de poder ser a última vez de vê-lo dessa forma tão familiar e querida.                       As antes crianças, todas cresceram e falam sem parar! Falam com animação da vida, seus projetos, suas composições musicais.  E isso é bom porque têm esperança e fé. Aos meus olhos são todos lindos, luminosos, do Bem.  Tratam-me agora como uma old lady, algumas vezes segurando em meu braço, outras alertando “segura no corrimão mãe”!          

Tomar consciência de que estou com bastante idade, é esquisito porque minha cabeça não acompanha meu corpo! E minha alma não cabe nesse corpo.   Ainda quero subir na jabuticabeira, comer manga do chão, espantar Abelhinha Cachorro dos cabelos. Continuo resmungona, metida, querendo corrigir o mundo deles, fazê-los entender o Grande Espírito! Todos ali me preencheram de amor, fazendo festa verdadeira e deixei acontecer sem me encolher que nem “Dormideira”. Me abri para receber, de maneira não escorregadia. Foi boa essa experiência! Até os que vinham com o ranço da pandemia incrustada em seu emocional, tornaram-se alegres e leves.

Por isso fui abastecida, sumiu meu buraco vazio, minhas carências, inseguranças, bobices e chatices.                            Essa vibração de amor, amor verdadeiro, contagiou a todos. Foi como a viração do vento mudando tudo.                      E voltamos pra casa, eu com minha amada cara metade, e a outra metade de mim ficou com eles na fazenda, porque é assim mesmo, tudo está certo.

Vivi plenamente o momento. Momentos sagrados.

Salve Oxóssi, Salve São Sebastião! Gratidão!

RJ 2021

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