Solange Mano: vontade, sorte e trabalho

Por volta de 1997 conheci Solange, no Rio, quando eu procurava uma professora de cerâmica. Foi a maior sorte! Comecei a frequentar as aulas dela no Itanhangá e nossa relação de mestra-aluna evoluiu também para a amizade, da qual muito me orgulho. Sempre admirei a força, humor, positividade, organização e criatividade da Solange. Depois de alguns anos como sua aluna, a convidei para abrir um ateliê no meu espaço, a OCA – Oficina do Corpo e da Alma, na Barrinha. Ali ela pode trabalhar, inclusive com crianças e adultos com problemas motores.  O tempo passou, a OCA saiu da Barrinha, Solange ficou viúva e corajosamente tomou decisões que muita gente não tomaria.  Hoje desfruta de sua casa-ateliê em Itaipava, faz sucesso com sua cerâmica de alta temperatura, seus alunos e os trabalhos que surgiram com a criação do Dia Internacional do Ceramista, outra obra assinada por dela. 


Stella: Solange, vou começar por um acontecimento que mudou sua vida já na maturidade: a morte do seu marido. Como você lidou com isso?
Solange: Conheci meu marido aos 18 anos, virei gente grande com ele. Quando ele se foi, a vida que eu sabia viver acabou. Foi maravilhosa, mas terminou. Na época eu pensei: “tenho que aprender a viver outra vida e não ficar querendo tapar um buraco, porque é impossível colocar algo nesse lugar”. Então, fui pra terapia para aprender essa nova vida. Decidi construir uma casa na serra para morar e abrir meu ateliê, foi uma luta danada, passei por crises financeiras, mas encarei. Ainda hoje, a coisa mais difícil de ter ficado viúva é quando acontece uma coisa boa comigo e não tenho como dividir com ele.
Todo mundo pode ser o “coitadinho”. Eu podia ter escolhido o caminho da “viuvinha”, mas escolhi ser feliz. Costumo dizer que podemos levar a nossa vida como uma novela mexicana, cheia de dramas, ou dar o tamanho real para os acontecimentos. Quando temos algum problema, algo ruim acontece, é normal ficarmos amuados, mas depois passa. Não podemos deixar apagar a chama da boa vibração.

Stella: Sobre a terapia. Como você chegou a essa conclusão de que precisava de ajuda?
Solange: Eu já tinha feito terapia em meados da década de 1970, foi maravilhoso. Na época, precisei buscar minha individualidade, porque com quando a gente casa, tem filhos, a gente some da gente. Quando fiquei viúva, precisei de ajuda para continuar vivendo. Se aquele povo estuda pra isso, pra quê vou quebrar minha cabeça sozinha? Foi um investimento, era muito caro pra mim, mas decidi que era tão importante como comer. E fiz.

Stella: Como é sua vida afetiva na maturidade?
Solange: 
Hoje, vivo muito bem. Tive namorados, fiquei curada. Sempre fui bem amada, nunca fui rejeitada, nunca fui traída. Até nisso tive sorte, tanto que não concordo com a afirmação de que homem é tudo igual. Eles são pessoas, e há pessoas boas e pessoas ruins. E, claro, tenho amigos e a minha família. Tive três filhos homens e, dos cinco netos, quatro são meninas. Arranjaram um jeito de me recompensar por uma vida toda com o varal cheio de cuecas (risos).

Stella: Você sempre teve esse senso prático e uma atitude positiva na vida?
Solange: Sim, mas acho também que sempre tive muita sorte. Por exemplo, quando me mudei do Rio para Itaipava e ninguém conhecia meu trabalho aqui, inauguraram um shopping na cidade e convidaram artistas para ocupar as lojas vagas por um tempo. Foi ótimo, tudo foi dando certo. Mas é claro que se eu ficasse trancadinha em casa ninguém iria me encontrar. Tive que dar a cara a tapa, divulgar o que eu faço.
Voltando um pouco no tempo, quando era casada e ainda trabalhava feito uma moura como executiva de grandes empresas, resolvi fazer uma pós-graduação em história da arte e arquitetura do Brasil na PUC. Queria ter uma base teórica maior nessa área. Tinha os filhos, marido, casa e trabalhava. Mas fazia minha cerâmica de noite. Tudo depende das prioridades que a gente elege pra nossa vida. Comecei assim. E quando cheguei aos 40 e poucos anos, resolvi largar tudo e ser ceramista.
Hoje posso dizer que pra seguirmos em frente – e bem – é preciso negociarmos mais com a gente mesmo, porque nos cobramos muito. A maturidade me trouxe muita coisa boa. Hoje eu vejo a vida de uma forma muito diferente. E melhor.

Stella: Acredito que você tenha muito o que dizer sobre o papel da cerâmica na sua vida… E foi você quem criou o “Dia Internacional do Ceramista”! Como foi isso?
Solange: A cerâmica é uma coisa mágica. O barro tem tempo certo para ser trabalhado. Se está mole, tem que esperar secar. Vamos aprendendo muita coisa com relação à nossa própria vida. Às vezes, o objeto fica todo melecado, mas tem que esperar pra limpar só depois de seco. Essa arte nos ensina a dar tempo para as coisas acontecerem. Além disso, criamos o espaço interno das peças brincando com o externo, tentamos, experimentamos, buscamos novos caminhos. Dar aula é muito interessante também. Se eu fizer só meu trabalho corro o risco de ficar mais presa na minha linha criativa. O aluno me traz suas demandas e eu vou me atualizar para atender. E ainda tem o prazer de ver a pessoa crescer, se desenvolver.

Sobre o “Dia do Ceramista”, tive a insana ideia, em 2012, de começar sozinha este movimento utilizando apenas o facebook e o email com o objetivo de divulgar a cerâmica de ateliê no Brasil. A ideia é que cada ceramista abra seu ateliê no dia 28 de maio para comemorar o nosso dia e chamar a atenção do mundo para a cerâmica artística. O resultado foi uma festa. Muitos participaram, ajudaram e tornaram essa iniciativa possível: artistas do Uruguai, Argentina, Chile, Inglaterra, França, e até da Austrália. Em 2013, o ceramista uruguaio Juan Pache gostou da ideia e nos chamou para estender a divulgação do dia 28 de maio para artistas de toda América Latina. E assim foi criado o “Dia Internacional do Ceramista”. As pessoas já comemoram a data, o evento já é delas. A ideia sempre foi dele caminhar sozinho mesmo.

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